[Texto curatorial em português, abaixo]

Entre septiembre y octubre pasados, el espacio Pivô, en São Paulo, presentó una revisión de la producción artística de Ivens Machado (Florianópolis, 1942 – Río de Janeiro, 2015), considerado uno de los artistas brasileños más notorios, con una obra pertinente que incide cada vez más entre las generaciones de artistas más jóvenes de Brasil.

Curada por Kiki Mazzucchelli, la exposición O cru do mundo (Lo crudo del Mundo) reunió un conjunto de esculturas, vídeos y dibujos que se centran en las primeras dos décadas de producción de Machado. Conocido por su obra escultórica, que emplea materiales característicos de la construcción civil popular (hormigón, barras de refuerzo, vidrios rotos, etc.), el artista comenzó su carrera en la década de 1970 en Río de Janeiro, teniendo como interlocutores a la artista Anna Bella Geiger y los críticos de arte Fernando Cochiaralle y Paulo Herkenhoff.

Una parte de la generación de artistas que inmediatamente sucedieron a los grupos afiliados al Concretismo y Neoconcretismo, Ivens Machado optó por forjar una trayectoria estética propia, que encontró cierta resistencia en el circuito de la época por ajustarse a las genealogías artísticas establecidas y por la forma polémica con que temas tales como la sexualidad y la violencia.

Gran parte de las obras reunidas en O cru do mundo fueron producidas en las décadas de 1970 a 1980, algunas de las cuales fueron expuestas sólo en exposiciones individuales del artista en galerías comerciales durante ese período. La exposición también incluyó obras más recientes que tuvieron poca o ninguna circulación en espacios institucionales. Al reunir obras de diferentes periodos de la producción del artista, esta muestra tuvo como objetivo enfatizar el carácter original de la obra de Ivens Machado y la coherencia formal y crítica que discurre a través de los diversos medios con los que trabajó.

En el relato de su encuentro con una instalación de Ivens Machado presentada en la 16ª Bienal de São Paulo (1981) – una gran forma ovoide de concreto armado salpicada de fragmentos de vidrio y suspendida por cables de acero-, el crítico Paulo Sergio Duarte escribe: “Digamos que si podríamos reducirla a la oposición crudo / cocido, estaríamos en el mundo de las formas crudas”. El título Lo crudo del Mundo elegido por la curadora está inspirado en esta referencia.

O CRU DO MUNDO

Por Kiki Mazzucchelli

O corrimento constante e impreciso que os gregos antigos conheciam como gonorréia caracterizou sempre a minha produção, não o que é conhecido hoje na medicina também como blenorragia. Numa visão ético-moralista característica dos meios da arte e de outros saberes desde a Antiguidade, eu estaria sendo usado e desperdiçando ao usar o que está em torno, e não pertence – infidelidade. Um tempo onde o prazer escorre pelas coisas sem objetivo. Estou satisfeito com essa maneira, não pretendo a posição de “reprodutor”. A paternidade não me pré-ocupa, embora reconheça sua existência. Não estou circunscrito pela razão ou pela informação e prefiro o fazer difuso e assistemático. Essencialmente o trabalho é “órfão” e “impotente”; não aspiro ao coito definitivo [1].

A mostra individual de Ivens Machado (Florianópolis, 1942 – Rio de Janeiro, 2015) no Pivô reúne um conjunto de esculturas, vídeos e desenhos produzidos em diferentes períodos de uma trajetória de quase cinco décadas. Conhecido por sua obra escultórica, na qual emprega materiais característicos da construção civil popular, o artista iniciou sua carreira no Rio de Janeiro, na década de 1970, tendo como interlocutores nomes como Anna Bella Geiger, Fernando Cocchiarale e Paulo Herkenhoff. Parte da geração que sucedeu imediatamente os grupos filiados ao Concretismo e ao Neoconcretismo, Ivens optou por forjar uma trajetória estética própria, tendo encontrado certa resistência no circuito mercadológico tanto por não se conformar formalmente às genealogias artísticas estabelecidas quanto pelo modo controverso com que tratava de temas como a sexualidade e a violência. Ainda assim, é considerado um dos artistas brasileiros mais significativos da segunda metade do século pela crítica especializada, e a relevância e influência de sua obra, sobretudo para as gerações mais jovens, transparece – intencionalmente ou não – no trabalho de artistas como Marcelo Cidade (o concreto e os cacos de vidro) e Adriana Varejão (a carne e os azulejos), para citar apenas alguns.

No relato de seu encontro com a instalação de Ivens Machado apresentada na 16a. Bienal de São Paulo (1981) – uma grande forma ovóide de concreto armado cravejada de cacos de vidros e suspensa por cabos de aço – o crítico Paulo Sergio Duarte escreve: “Digamos que, se pudéssemos reduzi-la à oposição cru/cozido, estaríamos no mundo das formas cruas. Entretanto, de uma crueza perversa, invertida, porque antinatural, calculada, escolhida nos seus detalhes, para se inscrever, como negação, no território herdado das formas precisas do construtivismo. Para complicar, estranheza e familiaridade comiam no mesmo prato”. Essa crueza característica da obra de Ivens se manifesta explicitamente no modo em que manipula materiais de aspecto bruto, como os cacos de vidro, o cimento e os vergalhões recorrentes em suas construções escultóricas. Mas para além de sua aparência física, suas formas pesadas e primitivas reiteram uma insistência em operar a desconstrução da normatização do comportamento incutida pelas instituições que regulam o “bom” funcionamento da sociedade (escola, família, etc.), bem como a recusa em se adequar a padrões estéticos estabelecidos. Desde as primeiras intervenções gráficas realizadas em papeis pautados (1974-5), nas quais interrompia ou desviava o curso das linhas, passando pelo espaço de subversão de regras de conduta social criado na instalação “Obstáculos/Medidas” (MAM-RJ, 1975), até sua produção escultórica – “arquiteturas sem projeto”, nas palavras de Milton Machado -, a obra de Ivens Machado está em contato vivo com a existência das coisas em seu estado cru, pré-normativo ou racionalizado; daí o título da mostra.

Organizar uma exposição individual de um artista cuja obra atravessa meio século é um grande desafio, que se torna ainda maior pela impossibilidade da interlocução direta com o autor. Embora existam alguns registros valiosos de sua produção, notadamente a abrangente monografia “O engenheiro de fábulas”, organizada por Ligia Canongia para acompanhar a mostra retrospectiva de mesmo nome apresentada em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo (2001-02), tivemos a sorte de contar com o apoio inestimável de Monica Grandchamp, amiga próxima e colaboradora de Ivens Machado, hoje responsável pelo espólio do artista. Monica esclareceu muitas das dúvidas que surgiram durante o processo de pesquisa e gentilmente cedeu algumas das obras e materiais de documentação apresentados aqui. Tendo trabalhado como assistente de Ivens por muitos anos e participado diretamente da feitura de suas obras, ela contribuiu, ainda, com a reconstrução de uma escultura de concreto armado e cacos de vidros produzida em 1982 e posteriormente destruída.

Frente à responsabilidade de representar a longa trajetória de Ivens Machado e às limitações de se trabalhar num espaço expositivo não-museológico, optou-se por selecionar um conjunto de obras que expressam alguns momentos-chave no desenvolvimento do trabalho, sendo que grande parte de las tiveram pouca visibilidade institucional ao longo dos anos. A última grande exposição monográfica de Ivens Machado em São Paulo ocorreu em 2002 na Pinacoteca do Estado, mais de uma década atrás. Isso significa que o público paulistano, particularmente a geração mais jovem, teve muito pouco contato com grande parte de sua produção que não pertence a acervos públicos ou que não integrou as mostras individuais realizadas em galerias comerciais nos últimos anos.

“O cru do mundo” acontece alguns meses após a exposição de Ivens Machado no MAM-RJ, com curadoria de Fernando Cocchiarale, que incluiu algumas de suas obras mais icônicas, entre elas “Cerimônia em três tempos” (1973) – a grande instalação com “mesas” de azulejos e o pedaço de carne fake que lhe valeu o primeiro prêmio no V Salão de Verão do MAM-RJ – e suas famosas esculturas em concreto recobertas por cacos de vidro, como o terrível e agigantado “Consolador” (1979) e o “Mapa Mudo” (1979) do Brasil, que revela tanto sobre nossa sociedade utilizando meios tão ínfimos. A mostra no Pivô, por outro lado, inclui um grande número de obras que pertencem a coleções particulares e ao espólio do artista e, nesse sentido, a proximidade temporal entre as duas exposições significa uma oportunidade importante para a ampliação do repertório disponível ao público.

Embora não tenha a pretensão de dar conta de toda a trajetória do artista, estão presentes em “O cru do mundo” desde as intervenções gráficas iniciadas na década de 1970, dois de seus primeiros vídeos realizados em 1974, um conjunto significativo de esculturas de concreto produzidas nas décadas de 1980-90, até os trabalhos mais recentes em que utiliza madeira, entulho, papelão e porcelana. Ao invés de privilegiar uma montagem cronológica, buscou-se potencializar a relação das obras com a arquitetura peculiar do Pivô, intensificando a experiência do encontro entre espectador e obra no espaço e evitando instrumentalizá-la. Por outro lado, em se tratando de um artista histórico, procuramos disponibilizar ao público materiais de referência, incluindo entrevistas em vídeo e importantes textos que permitem uma contextualização de seu trabalho e oferecem leituras aprofundadas sobre obras e séries específicas.

São raros os artistas que conseguem forjar uma linguagem própria e mais raros ainda aqueles cujas obras permanecem atuais ao longo dos anos. Ivens Machado afirmou uma vez não ter interesse em se relacionar com a história da arte [2] e, de fato, recusou o caminho mais fácil da citação ou da derivação de padrões estéticos arraigados. Esta talvez tenha sido ao mesmo tempo sua maldição e sua benção: a falta do devido reconhecimento em vida pelo espanto frente aquilo que se apresenta ao mundo pela primeira vez e o caráter único das formas que se mantêm vivas e pulsantes na sua atualidade e relevância, bem longe do “coito definitivo”.


[1] Depoimento publicado originalmente no convite da exposição do artista na Galeria Saramenha, Rio de Janeiro, 1987. Reproduzido em “O engenheiro de fábulas”, org. Ligia Canongia. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 2001.

[2]  “Interessa-me muito pouco a história da arte como referência. (…) Não existe intenção consciente. Só quero fazer uma forma.” (Entrevista com Daniel Piza, O Estado de São Paulo, 22 de outubro de 1991).